Espuma dos dias — A desordem internacional e as metamorfoses do neoliberalismo. Por António Covas

Seleção de Francisco Tavares

4 min de leitura

Com a devida vénia e agradecimento ao Prof. António Covas e a SulInformação

A desordem internacional e as metamorfoses do neoliberalismo

 Por António Covas

Publicado por   em 22 de Janeiro de 2026 (original aqui)

 

                   Ilustração gerada por Inteligência Artificial

 

No longo registo das suas metamorfoses, o capitalismo nascido com a revolução industrial do século XVIII lançou as primeiras grandes emissões de CO2 com o consumo crescente e massivo de combustíveis fósseis, um período da nossa história climática que o Prémio Nobel da Química Paul Crutzen denominou, em 2000, de período do Antropoceno.

Quase três séculos mais tarde, o capitalismo acelerou com a terceira revolução industrial e a frequência e intensidade dos acidentes climáticos registados leva-nos a concordar com o filósofo Paul Virilio quando ele se refere à indústria dos desastres do conhecimento.

Nas primeiras duas décadas do século XXI, o capitalismo neoliberal prepara a sua saída extraterritorial em direção ao ciberespaço, transformando-se num predador furtivo quase invisível, sob a forma de grandes fundos financeiros e sociedades offshore sem rosto, agindo furtivamente numa espécie de darknet dos mercados financeiros e corredores do poder político e cumprindo a única regra que conhece, qual seja, a privatização do benefício e a socialização do prejuízo.

Os seus novos parceiros nessa migração para o ciberespaço já aí estão, chamam-se inteligência artificial, blockchain e moedas virtuais.

Entretanto, cá em baixo, em Terra, as autoridades do costume ficarão para tratar da socialização dos prejuízos, das nossas bem conhecidas externalidades negativas e das muitas vítimas do Antropoceno que, diga-se de passagem, nós facilitámos por intermédio do nosso comportamento individual irresponsável, que trata o espaço público comum como terreno baldio e terra de ninguém.

São muitas as maldades e obscenidades do capitalismo neoliberal que domina e condiciona a nossa vida quotidiana, mas, também, o jogo das relações internacionais.

Eis uma breve síntese das suas maldades e das obscenidades do Antropoceno que ele promove.

– Em primeiro lugar, o capitalismo extrativista dos chamados materiais ou matérias raras em muitos países do mundo, que são imprescindíveis para incorporar nos dispositivos tecnológicos, assim como, a circulação e acumulação dos resíduos perigosos nos mesmos países,

– Em segundo lugar, o capitalismo de áreas de influência e da indústria da guerra, diretas e por procuração, que patrocina milícias, mercenários e grupos terroristas para realizarem o trabalho sujo, ou seja, a colonização de estados falhados e o controlo de áreas de influência,

– Em terceiro lugar, o capitalismo das migrações e dos refugiados que converte a pobreza e a miséria acumuladas em fluxos de deslocados internos e refugiados que, por sua vez, são transportados para esses lugares obscenos chamados campos de refugiados, uma verdadeira indústria do crime onde as condições de vida são obscenas,

– Em quarto lugar, o capitalismo da modernização ecológica e do greenwashing uma forma de o capitalismo lavar a sua má consciência em matéria de externalidades negativas sobre o ambiente e através de operações de engenharia e manipulação genéticas e engenharia biofísica corrigir algumas disfunções que ele próprio criou sobre os solos, o coberto vegetal, os lençois freáticos, os insetos polinizadores, a adaptação das variedades, a duração dos ciclos vegetativos, etc,

– Em quinto lugar, o capitalismo de acumulação bolsista e financeira, em benefício das grandes companhias tecnológicas, em que a acumulação de tanta riqueza, em pouco tempo e em poucas mãos, contrasta de forma obscena com a acumulação de uma imensa pobreza e desigualdade e que são, como tal, uma imagem de marca do capitalismo,

– Em sexto lugar, o capitalismo de destruição massiva, ou seja, acumulação de tantas bombas de destruição massiva – genéticas, biológicas, químicas, nucleares, informáticas, sanitárias – não conhece limites éticos e faz do capitaclismo um acontecimento iminente, uma verdadeira indústria de desastres do conhecimento,

– Em sétimo lugar, o capitalismo do precariado e da uberização sociais, que, a pretexto da revolução digital, desmaterializa e desinstitucionaliza as relações sociais do período anterior do capitalismo industrial e converte o trabalhador num prestador de serviços e num trabalhador intermitente sem direitos sociais e coletivos dignos da condição humana,

– Em oitavo lugar, o capitalismo da propaganda e da desinformação bem patente nas redes sociais onde a acumulação de tantas bolhas de ódio e violência, de tanta desinformação e notícias falsas faz parte das redes de propaganda do capitalismo e é uma verdadeira coleção de obscenidades,

– Em nono lugar, o capitalismo da guerra informática e da cibersegurança é claramente a guerra do caçador furtivo e do sniper, uma guerra conduzida à distância, insidiosa e cínica, que visa promover uma indústria do capitalismo cada vez mais florescente, a indústria da cibersegurança,

– Em décimo lugar, o capitalismo da cooperação multilateral e da ajuda humanitária cujo vergonhoso estado atual deixa as relações internacionais e o multilateralismo numa situação verdadeiramente obscena.

O capitalismo neoliberal, através das suas inúmeras metamorfoses, confunde-nos deliberadamente. O caos parece instalado mais uma vez, pois não sabemos se o futuro será uma provação ou, mesmo, uma autêntica condenação.

A emergência de um mundo multipolar em formação deixa as instituições multilaterais nascidas no pós-guerra muito vulneráveis e esta turbulência no sistema de relações internacionais desencadeia novos alinhamentos entre Estados e faz crescer o número de regimes populistas, iliberais e autocráticos com consequências diretas na governabilidade do sistema político da União Europeia.

Neste contexto, com a guerra da Ucrânia à nossa porta, a relação entre tecnologia e segurança adquire uma relevância primordial, pois já entrámos definitivamente no tempo das guerras híbridas.

E, tal como foi necessário redigir um tratado de não-proliferação de armas nucleares, talvez um dia seja necessário escrever, mesmo, um tratado de não-proliferação de armas inteligentes de destruição automática.

Basta “apenas” que aconteçam alguns acidentes graves cuja responsabilidade seja atribuída, “afinal”, à utilização abusiva de sistemas de inteligência autónomos e automáticos.

Entretanto, as redes de influência e dominação que comandam o mundo plano vão continuar a transformar as dificuldades em promessas e prometer salvar o que já está fora da esfera da salvação.

É um admirável mundo novo para os mestres da dissimulação e do cinismo.

E assim será, se assim for.

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O autor: António Covas é Professor Catedrático Aposentado da Universidade do Algarve. Doutor em Estudos Europeus pela Universidade Livre de Bruxelas (1987), professor catedrático da Universidade do Algarve desde 2000 (atualmente aposentado). Foi pró-reitor e vice-reitor da Universidade de Évora (1990-95) e assessor ministerial (1995-99).

 

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